A Marta criou o blog Marta pelo mundo quando foi descobrir o sudeste asiático. Acabou por assumir esta identidade pessoal e profissionalmente, como consultora e coach.

Mas o que nos fez ter vontade de falar com ela foram as partilhas que faz.

Sempre discreta, partilha as suas conquistas no sentido da sustentabilidade, inspirando quem a segue a experimentar diferente. Mal sabíamos nós que este caminho começou há anos, numa cidade que trata a moda em segunda mão de forma bem especial.

Obrigada Marta pela tua estória tão sentida, consciente e inspiradora!

Fim dos anos 90. Lembro-me de deambular pelo mercado de Camden Town, em Londres. Abundante em diversidade. Abundante em variedade. Repleto de peças únicas E tantas em 2ª mão. As minhas amigas deliciavam-se. E eu era incapaz de as comprar. Davam-me comichão. Quase que diria literalmente.

Mais de uma década depois, algures em 2016, procurava novos desafios.

A minha vida tinha dado uma cambalhota em termos profissionais. Ponderava então a ideia de um negócio próprio. Esta ideia levou-me, juntamente com uma amiga, à Maria Granel, em Lisboa. Foi aqui que despertei para o inevitável. Para o desperdício que gerava. Apresentamo-nos à Eunice, a proprietária, e falamos-lhe da hipótese de trazer a Maria Granel para o Porto. Disse-nos procurarem uma alma gémea para o fazer.

Naquele momento, ainda longe de compreender o alcance e importância do trabalho desta pequena mercearia num bairro residencial da capital, não entendemos que alma gémea era essa. A ideia de negócio caiu, mas, sorte a minha, a consciência ficou.

Marta Mendonça - Eu uso moda second hand | reCloset roupa em segunda mão

Despertei para o conceito de consumo consciente. Hábito a hábito, o meu estilo de vida mudou.

E a mudança acabou por chegar ao meu roupeiro. Aconteceu quando me dei conta que não fazia ideia onde estava uns 3 anos antes, a 24 de abril de 2013. Deveria ter sido um dia como aquele em que as Torres Gémeas foram atacadas, e do qual eu me lembro exactamente o que estava a fazer quando ouvi a noticia. Apercebi-me que não me lembrava de ouvir ou ler sobre o evento desse dia, do colapso de Rana Plaza, um complexo de fábricas no Bangladesh, onde era produzida roupa para marcas de Fast Fashion, como as que eu usava. Os trabalhadores tinham implorando para não irem trabalhar, dado os evidentes sinais de perigo. Foram obrigados a ir. Em 90 segundos Rana Plaza ruiu, e morreram 1134 pessoas.

Dei por mim a pensar que as minhas escolhas enquanto consumidora não influenciaram a queda das torres gémeas, mas influenciaram a queda de Rana Plaza. E comecei então a perceber quem realmente pagava o custo invisível do preço baixo de tantas das minhas peças, quem as produz, em que condições, e com que impacto.

Como consumidora, decidi saber mais.

Material a material, fui desvendando o impacto da indústria da moda no planeta. Algodão, viscose ou lã, da produção da matéria-prima até ao fim do seu ciclo de vida, fui desvendando o rasto de destruição, ora ambiental ora social, das minhas calças de ganga com ar vintage e da minha simples t-shirt.

Aprendi o quão sedento é o algodão (2.500 litros uma simples t-shirt), como o seu cultivo é responsável pelo uso de 22,5% dos inseticidas a nível mundial, 10% de todos os pesticidas e, no entanto, ocupa apenas 2,5% da área agrícola global. Como as minhas calças jeans com ar “usado” são sujeitas a químicos particularmente nocivos para os trabalhadores, para terem aquele acabamento. Como em grande parte das fábricas onde as mesmas são produzidas, a maioria das águas residuais não tratadas – cheias de corantes e outras substâncias químicas – acabam em rios e nos oceanos. Como estes tingimentos têxteis representam 20% da poluição industrial a nível global.

Constatei que me visto de plástico quase diariamente (polyester), e que o que isso significa é que essas peças não duram apenas o período de tempo, cada vez mais curto, em que gostamos de as vestir, mas antes umas boas centenas de anos.

Fiquei a saber que, na “capital” das calças de ganga, Xintang, na China, onde são produzidos mais de 300 milhões de calças de ganga por ano, a incidência de problemas de infertilidade é enorme. E que boa parte da produção da Fast Fashion acontece na região da Ásia Pacífico, que lidera a exploração de trabalho infantil a nível mundial, e que esta força de trabalho barata é muito usada por grandes marcas para a colheita de algodão, costura manual, etc…

E quando finalmente a roupa nos chega às mãos, o rasto continua, da libertação de microfibras durante a lavagem das roupas sintéticas e que acabam em rios e estuários, aos detergentes com efeitos nocivos para a vida marinha, à roupa com diferentes materiais que não pode ser reciclada, e que maioritariamente acaba em aterro sanitário ou é incinerada.

Com consciência, vem responsabilidade. E perante tudo o que aprendi, escolhi agir.

Comecei por destralhar o meu roupeiro. Dei mais de metade da roupa que tinha. Desta experiência resultou a sensação de ter destralhado o andar de cima, AKA, a minha cabeça. Foi verdadeiramente libertador.

De seguida deixei simplesmente de comprar roupa, qual desintoxicação. Foram 6 meses e limpeza que resultaram numa conquista absolutamente disruptiva. Deixei de me ver, classificar, tratar como consumidora e passei simplesmente a ser pessoa. Simplesmente.

Julho de 2017, numa viagem a Londres, dá-se o momento de viragem.

Decidi, aliás, ponderei começar a comprar em 2ª mão. Procurei incessantemente num sem fim de lojas em segunda mão pela cidade, um blazer vermelho perfeito. E assisti em silêncio e atónita à paciência do meu marido, outrora verdadeiramente incapaz de ir às compras comigo, com total predisposição para me acompanhar nesta busca. Encarou-a, percebi mais tarde, como uma verdadeira experiência cultural.

De regresso a Portugal, compra a compra, o preconceito desvaneceu-se.

Comecei por comprar umas sapatilhas a uma amiga, seguida de uma camisa e outra na icónica “A Outra Face da Lua”, em Lisboa. Mas foi com a compra de um casaco num site que esta nova forma de comprar se instalou em mim. Momentos há em que até se refastela de modo demasiado confortável… Mas de uma forma geral, passei a comprar maioritariamente em segunda mão, de uma forma muito mais ponderada, menos impulsiva e com um sem número de peças únicas à minha escolha. E acima de tudo, muito mais consciente.

Esta é a minha escolha. Recusar. Reduzir. Repensar. Reutilizar.

Como mulher mãe, cidadã, escolhi fazer parte da solução. E nesta escolha, em cada momento de consumo, estou a lidar directamente com um problema mundial. E esse é o meu, o nosso, grande poder.

Quanto ao blazer vermelho, até hoje não o encontrei.

Marta Mendonça, Marta pelo mundo

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